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18 de Janeiro de 2022

Famílias políticas no Brasil: sobre heranças, oligarquias e nepotismos

E continuamos votando na velha política.

Natália Oliveira, Engenheiro de Software
Publicado por Natália Oliveira
há 5 anos

Olá, você. Esse artigo será mais político do que jurídico, mas acho que mereço depois de tantos artigos jurídicos. Irei falar sobre as famílias políticas que temos no Brasil, que concentram poderes dos mais diversos tipos. Essa é uma herança histórica que eu não quero enterrar num Pet Sematary*.

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Muita gente fala em esforço, em trabalho, em mérito, mas pouco se fala de heranças. Aqui tratarei especificamente da herança política. Você sabia que existem famílias políticas que remontam à época da colonização? Pois é, clique aqui se quiser ler sobre. A família Sarney está aí para nos provar isso.

De acordo com nossa ilustre Constituição Federal:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)”

Mas será mesmo? Será que temos as mesmas chances que alguém da família Neves? Eu acho que não. As exceções nessas famílias provavelmente são isso: exceções. Enquanto a regra no Brasil já sabemos qual é. Nas palavras do cientista político Michel Zaidan:

"É como Gilberto Freyre aborda em sua obra: a família patriarcal é a dominação primeira do Brasil e se pode perceber a sobrevivência desse grande patrimonialismo até hoje na política brasileira"

Num estudo de 2014, pela ONG Transparência Brasil, quase metade (47%) dos parlamentares que tinham começado a última legislatura possuíam parentes na política. Leia aqui.

Talvez alguém diga “vocação”. Será mesmo? Será que se pode considerar que todos (as) na verdade não ingressaram na política pelo:

  • Excelente retorno financeiro;

  • Networking;

  • Poder político;

  • Oportunidade comerciais e negociais;

  • Visibilidade

  • Poder intelectual

Acho que todo mundo quer ter essas vocações (com as devidas exceções).

Para o professor de direito público Fabrício Tomio, em matéria do r7:

“Não é uma relação pessoal com o eleitor. Se a mídia é pouco plural e é controlada por grupos políticos, favorece os grupos familiares e agregados quanto ao uso do próprio Estado como mecanismo de ampliação de patrimônio e renda”

Eu acho que o professor está certo, isto para não citar o nepotismo. Deem uma olhada nessa matéria do Globo.

  • Mas por que quando depende de nós continuamos a votar na velha política?

Um adendo importante para espantar a hipocrisia: será que também não nos aproveitamos de facilidades já traçadas pela nossa família? O que isso diz sobre nós?

Mais importante: se sabemos que as facilidades atraem, por que não tornamos a classe política um exemplo para nós mesmo e paramos de votar nas mesmas oligarquias? Ao menos deveríamos olhar novas caras, novas ideias, novas siglas… Elas existem! E se você, mesmo estudando outras opções, execrar completamente todas as possibilidades, por que não tomar coragem para votar nulo?

Óbvio que para pessoas que não tiveram acesso a uma boa educação esse questionamento é injusto. Mas e você que teve?


Fontes/referências/indicações:

Constituição Federal

Galileu

O Globo

r7

Uol

Imagem: Pixabay

*Trata-se de um livro de Stephen King que posteriormente virou filme, e também inspirou uma música dos Ramones. Na história há um cemitério onde tudo que é enterrado volta a vida.


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12 Comentários

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Oligarquias republicanas.

Mas no Brasil a republica foi um verdadeiro leviatã.

Enfim, educação não é a saída de tudo isto. Por exemplo, existe um partido no Brasil que veio com ideais excelentes, como por exemplo:

- Intervenção minima do estado;
- Mitigar o Fundo Partidário.

O partido se forma buscando inovar, entretanto alia a filiação com uma mensalidade (oque seleciona a representatividade), e tenta colocar pessoas instruídas para concorrer mas campanhas (pessoas com curso superior).

Mas vejamos, no Brasil se você cursa um superior, não significa que você está apto a exercer a cidadania de forma plena. Já que poucos cursos superiores, como direito, gestão pública, ciências politicas dão ao "brasileiro" algum senso minimo de política, administração pública e economia.

Infelizmente se você se forma em curso de tecnologia no Brasil, ou mesmo algumas ciências sociais, você continua tendo a mesma consciência política, social e econômica que aquela deplorável que foi entregue para o cidadão no ensino público.

Então, eu creio ser extremamente fantasiosa que educação (genérica) pode levar o cidadão a se conscientizar com política. E até mesmo uma educação especifica pode causar desconforto, como ocorre na Coreia do Norte, onde o povo é alienado; ou mesmo aqui, em que algumas matérias buscam segregar as crianças pela cor de sua pele esquecendo que somos todos seres humanos.

Mas, creio que instrução minima de política e economia e teoria geral do estado nos falta.
Inegável que o brasileiro não tem conhecimento e tampouco distingue e conhece as funções de cargos públicos (vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos, governadores, presidente da republica), compreende o sistema (ministérios e secretarias (seus comissionados)), economia (inflação e deflação) e até mesmo o minimo de história, patriotismo e civismo.

Mas acredito que conscientizar o brasileiro neste ponto, inculcando que ele faz parte da coletividade, e que cada brasileiro sob a égide de uma bandeira é seu irmão, já seria um inicio para podermos evoluir este país.

Porque para mim não faz sentido uma população ser "obrigada" a votar, se não tem consciência de voto ou de cargo público, tampouco sabe de sua função em sociedade. continuar lendo

É amigo o voto obrigatório foi feito com 1 propósito, fazer da massa um instrumento de promoção e perpetuação do poder. De fato é muito mais fácil manipular ignorantes do que instruídos, se os ignorantes não fossem obrigados a votar, a maioria não votaria, e se eleger encima da parcela capacitada é bem complicado, quem pensa questiona, quem questiona exige, quem exige atrapalha ... ai fica difícil roubar não é mesmo?! continuar lendo

Que assunto mais interessante.
Precisaríamos dessa coletânea, com a história de ascensão de cada família política e a origem de suas fortunas. Não perderia uma só linha de leitura.
Vivemos a "cultura da falta de cultura" e fomos compelidos a acreditar no "voto por direito" ou no "voto por obrigação cívica", verdadeiros passaportes carimbados para a terra do ôba-ôba político quadrilheiro....não...partidário do Brasil. continuar lendo

Mas não havia dito que o problema do Brasil é a Educação? que ainda não temos? que de nada tem haver o sistema? continuar lendo

Natália,

Você discorreu muito bem em seu texto.
Gostei do que li.

Eu penso de idêntico modo, só não concordo com a ideia do voto nulo ou em branco!

No entanto, me questiono:
- Onde estão estas caras novas?
- Cadê as mulheres na política?

Estes dias fui procurada para ir à Brasília, no TSE, dar uma olhada num processo de abertura de um novo partido político que já tramita há alguns anos.
Tremi quando me acionaram.
Fiquei confusa: - Mais um partido?
E se vingasse a ideia dos 'sem partidos'?

Para rir, melhor dizer: - Quem está com o coração PARTIDO é o povo brasileiro diante de tamanha corrupção.

Um abraço! continuar lendo

Citei o voto nulo ou branco só para ilustrar o descontentamento de muitos, @fatimaburegio, porque também não sei dizer ao certo qual é a eficácia disso.
Atualmente me sinto bem confusa com relação a política brasileira (imagino que muita gente esteja assim). Tenho muitas críticas e reflexões, mas não consigo enxergar qual seria o norte, a ideologia "correta", a sigla mais adequada, enfim. continuar lendo

A candidatura independente com certeza criaria inicialmente uma confusão que não ajudaria muito na administração política, mas traria um tiro certeiro aos currais eleitorais que são os partidos atuais.
Candidatos independentes que fossem eleitos e tivessem alguma visão de Estado acabariam se aglutinando em várias categorias (conservador, liberal, capitalista...) que teriam então alguma afinidade e poderiam criar partidos políticos realmente programáticos, ou ideológicos; enfim, algo viável politicamente para o cidadão.
Estou apregoando: dos males o menor. continuar lendo

Natália entre as explicações para o tema discutido está a atuação do Judiciário que trata as pessoas como diferentes diante da mesma Lei. Quando um corrupto sai da cadeia ele ganha liberdade mas o aluno ganha a falta de material escolar. Quando um reclamante trabalhista ganha uma causa ABSURDAMENTE ALTA ele enche o bolso o advogado ganho bom honorário mas um desempregado continua desempregado. No dia que o inconsequente seja na área da política, na área criminal ou do Direito Público tiver o mesmo medo da Justiça que tem o devedor de alimentos poderemos esperar um país com menos diferenças. continuar lendo