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24 de Fevereiro de 2018

Sua argumentação jurídica sobreviveria nessa rede social?

Sobre o Kialo e nosso nível de argumentação jurídica na web.

Natália Oliveira, Advogado
Publicado por Natália Oliveira
há 2 meses

Em alguns debates jurídicos na internet é possível nos depararmos com comentários rasos, ad hominem, com um vocabulário chulo e de uma argumentação jurídica duvidosa. Creio que um belo “não sei, preciso estudar esse assunto” às vezes é mais sábio do que emitir opiniões aleatórias ou sem fundamentação.

O mínimo que podemos esperar num ambiente jurídico é uma argumentação coerente, uma troca de experiências e saberes, para que possamos crescer juntos nesse ambiente virtual. Não me refiro apenas a profissionais e estudantes, mas também ao público que não estuda o direito. É possível dar a sua opinião e se informar mantendo o nível de debate, adquirir novos conhecimentos e fomentar os estudos dos profissionais com perguntas.

Em matéria do jornal Nexo, tomei conhecimento de uma rede social totalmente voltada para organizar, catalogar e alimentar discussões acerca de um tema. A rede social em questão é o Kialo. Pense, por exemplo, na questão do foro privilegiado, sendo debatido através de argumentos catalogados, a favor ou contra, de forma extremamente organizada. Dei uma olhada no site e é de aliviar pessoas que possuem TOC:

A imagem acima representa uma topografia dos argumentos de determinado tema, que são votados e discutidos, organizados em cards, sendo os verdes argumentos prós e os vermelhos, contra. Você pode seguir o tema e também compartilhá-lo em outras redes sociais. A questão que paira é: aplicada a um contexto jurídico da web, o que iremos presenciar nesse meio? Pensemos no Jusbrasil, que é a rede em que escrevo e é a que você lê agora. Quantos comentários construtivos/bem estruturados você leu hoje? Quantos argumentos organizados você já postou?

É preciso uma certa abertura para entender também que um bom argumento não precisa lhe dizer o que você quer, não precisa concordar com você. Acredito ser de extrema importância não só absorver argumentos que corroboram com a sua ideia, como também absorver argumentos que não. Se você só lê a doutrina que concorda com o que você já acredita, como pode saber que a doutrina que não concorda está realmente “errada”? A dúvida é o primeiro passo para a reflexão. Em um contexto jurídico penalista, por exemplo, tudo o que você precisa é arrancar uma dúvida com sua fundamentação, porque in dubio pro reo. Faz muita diferença.

Quando clicamos em algum pedaço do mapa de discussão, são apresentados os cards de argumentação. Esse aqui é da sessão Law, na discussão sobre o tópico “The primary focus of prisons should be rehabilitation and reintegration, not punishment”:

Os argumentos poderiam ter uma maior desenvolvimento, creio, mas organizar a discussão já é um fato louvável. Dito isso, proponho alguns pontos de reflexão sobre os debates aqui no Jusbrasil:

  • Argumento bem escrito não precisa ser um argumento com juridiquês. Você não precisa disso para ser entendido e, pensando na coletividade, lembre-se que existem pessoas (estudantes e leigos) que também querem entender o direito.

  • Se você é um “troll”, uma rede social jurídica não é para você. Ofensas gratuitas e palavras chulas desnecessárias cabem melhor no Facebook (e olhe lá). Saiba o seu propósito.

  • Se você é um cidadão procurando direitos, ajude a fomentar os comentários de forma produtiva, fazendo perguntas nos comentários dos textos, ou mesmo mandando mensagens para os autores de textos jurídicos. Mas separe o que é uma dúvida de um caso jurídico, pois o conhecimento do advogado é a base de seu próprio sustento. Trabalhar de graça não é justo.

  • Se encontrou um artigo jurídico que defende um ponto que você é radicalmente contra, não comece a atacar o autor. Ataque a ideia, com argumentos; isso enriquece o debate. (Se quiser ler um pouco sobre falácias clique aqui).

Essas são apenas algumas ideias de conduta. Podemos encontrar diretrizes úteis na Política de Respeito e Gentileza do Jusbrasil. Dê uma lida, já que é aqui que você está interagindo.

Quanto ao Kialo, espero que nos sirva de inspiração. A internet é uma excelente ferramenta para organização e debates; não precisamos mais estar presentes numa Ágora para debater alguma coisa, basta clicar e digitar.


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31 Comentários

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Adorei. Dá pra fazer uma lista de usuários aqui no Jusbrasil, que infelizmente deixam qualquer argumento jurídico de lado para simplesmente impor sua opinião aos outros, às vezes, de maneira arrogante e estúpida.

Certa vez um usuário do site disse que o tempo que ele tinha de OAB e de advocacia, era maior do que a minha idade (só pq sou novinho kkkk), e que ele estava tomando seu café no Canadá curtindo o sucesso da sua carreira enquanto "discutia" comigo.

O que eu fiz? Joguei o nome dele no Google e de cara vi que ele foi aprovado no mesmo Exame de Ordem que eu. Engraçado que depois que postei o link da página do Conselho Federal com o nome dele, aprovado no mesmo Exame que eu, o belezão sumiu, apagou todos os comentários.

Não precisa disso. Pessoas assim são uma vergonha pra classe. A baixaria não leva a lugar algum :) continuar lendo

Liga não, Dr.Lucas!

Mesmo que as alegações do ''Dr.Internacional' fossem verdadeiras, faz-me lembrar que caixão não tem gavetas, e que, ao morrer, ninguém leva nada consigo.
Na verdade, lá na tumba fria, a sete palmos abaixo da terra, os vermes comerão as carnes dos barões e dos plebeus!

Um abraço! continuar lendo

Perfeito, faço de suas palavras as minhas. Abraços Dra continuar lendo

Perfeito Natália! Este artigo foi realmente necessário. Parabéns pelo rico conteúdo! continuar lendo

Texto preciso e que reflete muitas atitudes presentes. Algumas pessoas sequer se dão ao trabalho de ler a publicação até o final, ou ainda trazer algo importante para a discussão.

Além disso, não entendem o tempo envolvido para a criação e produção de um texto com conteúdo de qualidade, visando o fomento do debate ou informações importantes ao público, e passam apenas a criticar a menosprezar o trabalho apresentado.

Parabéns Dra. Natália, concordo em gênero, número e grau. continuar lendo

Adorei, estou testando agora mesmo a rede proposta!
Bela iniciativa!
Pessoas confundem direito à liberdade de expressão com um suposto direito de ofender a quem bem entender ou ainda impor um pensamento com complexidade no entendimento, não é? hahah
Talvez eu esteja sendo um pouco generalista, mas é como sinto neste ambiente, principalmente com o grande crescimento de "fake news" e a constante intolerância ao diferente.
Legal é ver como a inclusão de mulheres nos ambientes de discussões de qualquer cunho, demonstra como elas são muito mais abertas a ouvir, entendem e propor do que os homens. Homens tendem mais a ser incisivos de forma exagerada e não respeitar o direito do outro. Novamente sinto por ser generalista, mas garanto que muitos concordarão. Por ser uma questão de opinião, não tenho responsabilidade integral com a verdade, apenas com meus pensamentos e espero não agredir ninguém com esta colocação.
De qualquer forma admiro sua iniciativa e espero que mais pessoas leiam esta publicação.
Muito obrigado!
Ps:. Não posso deixar de apontar o seu interesse por artes marciais, é incrível ver que pessoas que treinam para lutar, cada vez menos precisam botar em prática a agressividade que supostamente esta atrelada ao treino da arte em si. Eu também pratico artes marciais e depois que comecei a treinar, precisei cada vez menos colocar os golpes em ação, em contrapartida entendi muito melhor meus oponentes e amigos tornando praticamente desnecessária a própria arte, por mais irônico que seja. Domina-se para não precisar usar, e o espírito jamais se comprime. continuar lendo

É bem interessante mesmo, @jorgemerida, apesar da barreira do inglês para algumas pessoas.
Aqui no Jusbrasil tem um espaço legal para debates, dúvidas e troca de informações:

https://perguntaserespostas.jusbrasil.com.br/

Só precisamos nos inspirar e aplicar essas ideias aqui também. Debates jurídicos de qualidade e em português, que qualquer brasileiro possa entender.

No momento dei uma parada de fim de ano nas atividades físicas, mas é realmente muito gratificante! O objetivo é esse mesmo: "domina-se para não usar, e o espírito jamais se comprime".
O sedentarismo e as comilanças de natal e ano novo ocuparão esse espaço brevemente hahaaha continuar lendo